«Dos não crentes recebemos o recentramento do debate», disse o P. Tolentino,sexta-feira passada, dia 16, no lançamento do «Pai-nosso que estais na terra». Por isso «o discurso teológico tem de ser poroso» e acolher poetas e criadores, e também a dissensão, a heterodoxia e a «pergunta mais radical». O crente, por seu lado, «é uma pergunta», «um património de inquietação» que «habita o desconforto» e «calça as sandálias de peregrino, mesmo quando é velho». Por isso, acrescenta o poeta e biblista, eles deixam uma «herança ao mundo e à cultura».
http://www.snpcultura.org/igreja_teologia_cultura_elogio_crentes_e_nao_crentes.html
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Guilherme Oliveira Martins a propósito de Tolentino Mendonça
«Pai-Nosso que Estais na Terra» de José Tolentino Mendonça (Paulinas, 2011) é, segundo o subtítulo da obra, «o Pai-nosso aberto a crentes e a não-crentes» e José Mattoso afirma que essa abertura constitui uma característica singularíssima desta obra: «há milhares de comentários ao Pai-nosso, a única oração que Jesus nos ensinou. Não conheço nenhum ao nosso Pai que está na Terra». É por aí que o escritor faz do seu comentário um diálogo aberto a todos. Nesse sentido, este é um livro para este tempo, uma vez que procura sinais de esperança num momento de grande dúvida e incerteza.
ENTRE A DISPONIBILIDADE E O ENCONTRO
Estamos perante um livro de disponibilidade e de encontro. Pensei nele, há dias, quando em Ponta Delgada, numa iniciativa da Comissão Diocesana Justiça e Paz, me perguntaram como será possível sermos solidários e próximos nos dias de hoje – e respondi que a melhor maneira é darmo-nos como presentes e disponíveis, em lugar de nos impormos. E é essa disponibilidade de dizer «aqui estou!», fundamental em tempos de solidão e indiferença. O tema deste livro é exatamente esse: o de considerar a disponibilidade de quem dá e de quem recebe. De um modo que apela ao desassossego, o nosso autor fala-nos do Pai-nosso com sinal de unidade que tem tudo a ver connosco, e com as nossas diferenças, por isso nos fala da terra, não como lugar de chegada, mas como ponto de passagem e de partida, como instância de peregrinação. De facto, ao dirigirmo-nos ao Pai que está nos céus e na terra, sentimos que Charles Péguy tem razão ao invocar o sentido pessoal e comunitário de um diálogo: «É necessário salvar-se conjuntamente, precisamos de chegar juntos ao Paraíso, precisamos apresentar-nos juntos no Paraíso. É necessário pensar nos outros, é necessário doar-se aos outros. O que é que Deus nos dirá, se chegarmos ao paraíso sem os outros?». É esta a lição fundamental desta extraordinária oração que se baseia no amor e na responsabilidade para com os outros – a outra metade de nós mesmos. E é assim que a lição fundamental deste belo livro se pode resumir nesta afirmação: «Ao recitar o Pai-nosso somos chamados a viver uma aventura que Jesus quis que fosse assim: partir da nossa experiência humana e comum, do nosso viver ferido para descobri-lo companheiro, como Ele foi companheiro dos discípulos de Emaus, naquele entardecer que é ainda o nosso».
ABRIR O CORAÇÃO
A Regra de S. Bento diz: «Abre o ouvido do teu coração». A arte da escuta exige que o diálogo seja efetivo. «Escutarmos e podermos ser escutados, até ao fundo e até ao fim, abre, no Espírito, horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da esperança». A cada passo encontramos a palavra esperança, ligada ao «bom uso das crises». Num tempo de escassez de mestres, as experiências «são realmente grandes mestres, que têm alguma coisa a ensinar-nos». Mounier falou dos acontecimentos, esses nossos grandes mestres interiores, e Etty Hillesum implorou: «Meu Deus, esta época é demasiado dura para gente frágil como eu. Mas sei igualmente que, a seguir a este, outro tempo virá». Impõe-se, de facto, neste tempo de crise, uma atenção especial ao que nos rodeia, e dessa atenção tem de resultar o cuidado, que está na etimologia de caridade. Por que razão chegámos aqui? Porque não cuidámos de algumas coisas elementares, designadamente de que o progresso não é ilimitado e de que o desenvolvimento humano não existe, se não pusermos as pessoas no centro da economia e da sociedade. Daí que a austeridade que aí está e que até pode ser boa conselheira, não possa ser cega e surda relativamente à justiça. Não é um fim em si, a austeridade tem de ser um instrumento de dignidade e de respeito mútuo. Tem de ser modéstia, sobriedade e de reciprocidade. «Todas as vidas cabem na imagem quotidiana, quase trivial, do pão que se parte e reparte. Porque as vidas são coisas semeadas, crescidas, maturadas, ceifadas, trituradas, amassadas: são como pão. Porque não apenas degustamos e consumimos o mundo: dentro de nós vamos percebendo que o mundo, que o tempo, também nos consome, nos gasta, nos devora. Por boas e por más razões, ninguém permanece inteiro. Somos uma massa que se quebra, um miolo que se esfarela, uma espessura que diminui». Não podemos continuar a pôr o consumo desenfreado em primeiro lugar, a gastar o que se tem e o que se não tem, a viver a crédito, a julgar que a especulação pode ocupar o lugar da criação, a jogar permanentemente com as aparências, a praticar a ilusão dos resultados que não existem – tudo isso obriga a compreender que devemos merecer o pão nosso de cada dia.
O MISTÉRIO DAS TENTAÇÕES
José Tolentino Mendonça recorda, em determinado momento do seu livro, o episódio das tentações de Jesus: «Então o espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães”. Respondeu-lhe Jesus: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Depois, conhece-se o que segue: o diabo coloca primeiro Jesus sobre o pináculo do templo e em seguida num monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória. Mas o resultado é que, em face das respostas de Jesus, «o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no» (Mt., 4,1-11). O autor diz-nos que estas tentações não aconteceram num só dia e que representam a vivência das provações da condição humana. Mas quais as tentações que nos rodeiam e que aqui estão figuradas? O materialismo, o providencialismo e o absolutismo. O materialismo e a idolatria da matéria, numa vertigem de tudo ocupar com a satisfação imediata dos desejos e das explicações simplificadoras. O providencialismo, que confunde a relação com Deus com as interpretações fantasiosas e mágicas. «Não nos podemos atirar de pináculos para que Deus nos segure. Temos de integrar saudavelmente os nossos limites e fazer a nossa parte». E o absolutismo, que faz «do domínio da posse a fonte de felicidade» e que confunde a glória passageira com a experiência da magnitude da dignidade. Mas, para o nosso escritor, temos de lembrar uma quarta tentação, bem ilustrada pelo drama de T.S. Eliot «Crime na Catedral». Aí o que está em causa tem a ver com os desejos de fidelidade poderem ser sinais de orgulho e de vaidade… Será que não cometemos o pecado da soberba perante as virtudes que julgamos possuir? E é essa quarta tentação que pode minar a confiança, uma vez que ela é verosímil e que nos pode atingir. O cristianismo caracteriza-se, porém, por aproximar o exemplo do Filho de Deus das nossas próprias provações. Não se trata de nos compararmos com Alguém que não pode compreender-nos, mas de colocar as nossas angústias ao alcance do próprio Deus. Essa é a chave da Encarnação. «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» - os ecos do Salmo são o ponto nodal de um profundo diálogo. Daí a confiança nascida numa comparticipação que tem a ver com a experiência humana. E Simone Weil afirma: «Só a confiança dá suficiente força para que o receio não seja a causa da queda».
«VAI ONDE NÃO POSSAS...»
Angelus Silesius diz: «Vai onde não possas / vê onde não vês: / escuta onde não ressoa / e assim estarás onde Deus fala». Este é o silêncio fundamental que exige que oiçamos o essencial por parte de quem «é o Jesus que nos interpela a cada passo e inesperadamente». Com fome, deste-me de comer, com sede deste-me de beber, nu, vestiste-me… Afinal, esse é o sinal de responsabilidade que se nos pede. E este ir onde se não possa, não é mais do que ser cada vez mais exigente e nunca acomodado, mantendo os olhos abertos.
Guilherme d'Oliveira Martins
ENTRE A DISPONIBILIDADE E O ENCONTRO
Estamos perante um livro de disponibilidade e de encontro. Pensei nele, há dias, quando em Ponta Delgada, numa iniciativa da Comissão Diocesana Justiça e Paz, me perguntaram como será possível sermos solidários e próximos nos dias de hoje – e respondi que a melhor maneira é darmo-nos como presentes e disponíveis, em lugar de nos impormos. E é essa disponibilidade de dizer «aqui estou!», fundamental em tempos de solidão e indiferença. O tema deste livro é exatamente esse: o de considerar a disponibilidade de quem dá e de quem recebe. De um modo que apela ao desassossego, o nosso autor fala-nos do Pai-nosso com sinal de unidade que tem tudo a ver connosco, e com as nossas diferenças, por isso nos fala da terra, não como lugar de chegada, mas como ponto de passagem e de partida, como instância de peregrinação. De facto, ao dirigirmo-nos ao Pai que está nos céus e na terra, sentimos que Charles Péguy tem razão ao invocar o sentido pessoal e comunitário de um diálogo: «É necessário salvar-se conjuntamente, precisamos de chegar juntos ao Paraíso, precisamos apresentar-nos juntos no Paraíso. É necessário pensar nos outros, é necessário doar-se aos outros. O que é que Deus nos dirá, se chegarmos ao paraíso sem os outros?». É esta a lição fundamental desta extraordinária oração que se baseia no amor e na responsabilidade para com os outros – a outra metade de nós mesmos. E é assim que a lição fundamental deste belo livro se pode resumir nesta afirmação: «Ao recitar o Pai-nosso somos chamados a viver uma aventura que Jesus quis que fosse assim: partir da nossa experiência humana e comum, do nosso viver ferido para descobri-lo companheiro, como Ele foi companheiro dos discípulos de Emaus, naquele entardecer que é ainda o nosso».
ABRIR O CORAÇÃO
A Regra de S. Bento diz: «Abre o ouvido do teu coração». A arte da escuta exige que o diálogo seja efetivo. «Escutarmos e podermos ser escutados, até ao fundo e até ao fim, abre, no Espírito, horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da esperança». A cada passo encontramos a palavra esperança, ligada ao «bom uso das crises». Num tempo de escassez de mestres, as experiências «são realmente grandes mestres, que têm alguma coisa a ensinar-nos». Mounier falou dos acontecimentos, esses nossos grandes mestres interiores, e Etty Hillesum implorou: «Meu Deus, esta época é demasiado dura para gente frágil como eu. Mas sei igualmente que, a seguir a este, outro tempo virá». Impõe-se, de facto, neste tempo de crise, uma atenção especial ao que nos rodeia, e dessa atenção tem de resultar o cuidado, que está na etimologia de caridade. Por que razão chegámos aqui? Porque não cuidámos de algumas coisas elementares, designadamente de que o progresso não é ilimitado e de que o desenvolvimento humano não existe, se não pusermos as pessoas no centro da economia e da sociedade. Daí que a austeridade que aí está e que até pode ser boa conselheira, não possa ser cega e surda relativamente à justiça. Não é um fim em si, a austeridade tem de ser um instrumento de dignidade e de respeito mútuo. Tem de ser modéstia, sobriedade e de reciprocidade. «Todas as vidas cabem na imagem quotidiana, quase trivial, do pão que se parte e reparte. Porque as vidas são coisas semeadas, crescidas, maturadas, ceifadas, trituradas, amassadas: são como pão. Porque não apenas degustamos e consumimos o mundo: dentro de nós vamos percebendo que o mundo, que o tempo, também nos consome, nos gasta, nos devora. Por boas e por más razões, ninguém permanece inteiro. Somos uma massa que se quebra, um miolo que se esfarela, uma espessura que diminui». Não podemos continuar a pôr o consumo desenfreado em primeiro lugar, a gastar o que se tem e o que se não tem, a viver a crédito, a julgar que a especulação pode ocupar o lugar da criação, a jogar permanentemente com as aparências, a praticar a ilusão dos resultados que não existem – tudo isso obriga a compreender que devemos merecer o pão nosso de cada dia.
O MISTÉRIO DAS TENTAÇÕES
José Tolentino Mendonça recorda, em determinado momento do seu livro, o episódio das tentações de Jesus: «Então o espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães”. Respondeu-lhe Jesus: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Depois, conhece-se o que segue: o diabo coloca primeiro Jesus sobre o pináculo do templo e em seguida num monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória. Mas o resultado é que, em face das respostas de Jesus, «o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no» (Mt., 4,1-11). O autor diz-nos que estas tentações não aconteceram num só dia e que representam a vivência das provações da condição humana. Mas quais as tentações que nos rodeiam e que aqui estão figuradas? O materialismo, o providencialismo e o absolutismo. O materialismo e a idolatria da matéria, numa vertigem de tudo ocupar com a satisfação imediata dos desejos e das explicações simplificadoras. O providencialismo, que confunde a relação com Deus com as interpretações fantasiosas e mágicas. «Não nos podemos atirar de pináculos para que Deus nos segure. Temos de integrar saudavelmente os nossos limites e fazer a nossa parte». E o absolutismo, que faz «do domínio da posse a fonte de felicidade» e que confunde a glória passageira com a experiência da magnitude da dignidade. Mas, para o nosso escritor, temos de lembrar uma quarta tentação, bem ilustrada pelo drama de T.S. Eliot «Crime na Catedral». Aí o que está em causa tem a ver com os desejos de fidelidade poderem ser sinais de orgulho e de vaidade… Será que não cometemos o pecado da soberba perante as virtudes que julgamos possuir? E é essa quarta tentação que pode minar a confiança, uma vez que ela é verosímil e que nos pode atingir. O cristianismo caracteriza-se, porém, por aproximar o exemplo do Filho de Deus das nossas próprias provações. Não se trata de nos compararmos com Alguém que não pode compreender-nos, mas de colocar as nossas angústias ao alcance do próprio Deus. Essa é a chave da Encarnação. «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» - os ecos do Salmo são o ponto nodal de um profundo diálogo. Daí a confiança nascida numa comparticipação que tem a ver com a experiência humana. E Simone Weil afirma: «Só a confiança dá suficiente força para que o receio não seja a causa da queda».
«VAI ONDE NÃO POSSAS...»
Angelus Silesius diz: «Vai onde não possas / vê onde não vês: / escuta onde não ressoa / e assim estarás onde Deus fala». Este é o silêncio fundamental que exige que oiçamos o essencial por parte de quem «é o Jesus que nos interpela a cada passo e inesperadamente». Com fome, deste-me de comer, com sede deste-me de beber, nu, vestiste-me… Afinal, esse é o sinal de responsabilidade que se nos pede. E este ir onde se não possa, não é mais do que ser cada vez mais exigente e nunca acomodado, mantendo os olhos abertos.
Guilherme d'Oliveira Martins
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Egipto: Irmandade Muçulmana opõe-se ao exército, aumentando receios na comunidade cristã
«A Irmandade Muçulmana, o partido islâmico que venceu com 36,6% dos votos a segunda volta das eleições legislativas no Egipto, decidiu ontem retirar-se do grupo de contacto com o Exército, acusando-o de “marginalizar o Parlamento” encarregado de nomear a comissão que redigirá a futura Constituição do Egipto.
Mohamed el-Baltagui, um dos dirigentes do partido Liberdade e Justiça, ligado à Irmandade, indicou que este abandono ocorre “após as afirmações do general Mokhtar el-Mulla”, membro do Conselho Militar no poder, de que o Parlamento não terá a exclusividade das nomeações desta comissão.
“Consideramos que qualquer tentativa de marginalizar o Parlamento ou de reduzir as suas prerrogativas em favor de qualquer outra entidade não eleita é uma forma de ignorar a vontade popular”, declarou Baltagui à agência France Presse.
O general Mulla, membro do Conselho Supremo das Forças Armadas no comando desde a queda de Hosni Mubarak, assegurou que o futuro parlamento não “será representativo” de todos os egípcios, segundo declarações divulgadas ontem pelo jornal britânico The Guardian.
Em consequência disso, ele afirmou que os nomeados para redigir a futura Constituição devem também ser aprovados pelo governo de transição e por esse “Conselho Consultivo”, duas instituições controladas pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.
Esta questão é tanto mais significativa para a comunidade cristã copta, que representa apenas cerca de 10 por cento dos 80 milhões de habitantes do país, pois é indisfarcável o receio perante a subida ao poder dos partidos islamistas, sendo que alguns deles, sendo fundamentalistas, pregam um Estado islâmico, baseado na sharia, a lei islâmica.
A redacção da futura constituição será determinante para se saber qual o verdadeiro grau de liberdade religiosa que irá prevalecer no país.»
Departamento de Informação da Fundação AIS
Mohamed el-Baltagui, um dos dirigentes do partido Liberdade e Justiça, ligado à Irmandade, indicou que este abandono ocorre “após as afirmações do general Mokhtar el-Mulla”, membro do Conselho Militar no poder, de que o Parlamento não terá a exclusividade das nomeações desta comissão.
“Consideramos que qualquer tentativa de marginalizar o Parlamento ou de reduzir as suas prerrogativas em favor de qualquer outra entidade não eleita é uma forma de ignorar a vontade popular”, declarou Baltagui à agência France Presse.
O general Mulla, membro do Conselho Supremo das Forças Armadas no comando desde a queda de Hosni Mubarak, assegurou que o futuro parlamento não “será representativo” de todos os egípcios, segundo declarações divulgadas ontem pelo jornal britânico The Guardian.
Em consequência disso, ele afirmou que os nomeados para redigir a futura Constituição devem também ser aprovados pelo governo de transição e por esse “Conselho Consultivo”, duas instituições controladas pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.
Esta questão é tanto mais significativa para a comunidade cristã copta, que representa apenas cerca de 10 por cento dos 80 milhões de habitantes do país, pois é indisfarcável o receio perante a subida ao poder dos partidos islamistas, sendo que alguns deles, sendo fundamentalistas, pregam um Estado islâmico, baseado na sharia, a lei islâmica.
A redacção da futura constituição será determinante para se saber qual o verdadeiro grau de liberdade religiosa que irá prevalecer no país.»
Departamento de Informação da Fundação AIS
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Governo francês condecora José António Falcão!
O arquitecto José António Falcão, director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, explica que o “mais importante” da distinção é que ela constitui “um sinal de que aquilo que está a ser feito no Alentejo não passa despercebido às autoridades francesas”, que quiseram realçar “que o trabalho é relevante e deve ser continuado”, acentuou.“O aspeto mais delicado” da condecoração foi a recuperação do estudo de uma das “obras-primas da arte francesa”, ‘A Morte de Sardanápalo’, do pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863), roubado em 1988 da Casa dos Patudos, em Alpiarça.“Com muita persistência conseguiu-se que essa e outras peças voltassem a Portugal”, explicou o especialista em património religioso, que trabalhou no museu entre 1993 e 1995 como conservador, e de 2003 a 2008 como diretor.A obra viria a ser recuperada pela polícia italiana em 1995, no interior de uma igreja abandonada de Milão, que servia de esconderijo para peças furtadas.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Fazer a diferença
A vocação do silêncio: José Luís Peixoto na Cartuxa de Évora
«Caminhava com o prior ao longo dos claustros quando os sinos começaram a tocar. A dissolverem-se no céu ou a retinirem nas paredes de pedra, chamavam para as vésperas e, longamente, acompanharam-nos até à entrada da igreja. A tarde dobrava o ponto em que o calor se transformava em calma, primavera de Deus. No interior da igreja, era fresco o eco da lonjura. Quase indistinto dos objectos e das imagens, imóvel, sentado, com o capuz a cobrir-lhe a cabeça, estava um monge velho, curvado. O prior apontou-me um lugar, fez-me gesto para esperar ali e saiu. O monge e eu ficámos a respirar. Foi então que o silêncio começou.
Calcular a passagem do tempo dentro do silêncio é comparável a contar segundos pela chama de uma vela ou por um abraço. Semelhante a estes dois exemplos, também o silêncio transporta um sentido imperturbável que é maior do que o tempo que pode ser medido. Como se acontecesse noutro lugar, como se ignorasse os minutos e, assim, lhes subtraísse toda a força da sua importância. O silêncio não se deixa transformar por horas, dias ou séculos. Aquilo que o silêncio era em 1084, quando São Bruno fundou a Ordem da Cartuxa, continua a ser, hoje, o silêncio.
Não sei quantos minutos passaram até começarem a chegar monges e o prior entre eles. Os passos no estrado de madeira, o som de encontrarem o seu lugar, de tirarem os livros enormes e de os abrirem. E ninguém dirigia a atenção para fora daquilo que estava a fazer, ninguém fazia um gesto desnecessário, ninguém procurava o olhar de ninguém. As vésperas são o último serviço litúrgico no dia de um monge cartuxo. O primeiro tem início à meia-noite e, na semiescuridão da capela, dura cerca de duas horas e meia. São as matinas. Dividem o sono dos cartuxos, que dormem entre as oito e trinta e um pouco antes da meia-noite, voltando depois a dormir entre as três e as seis e meia da manhã. Às oito, inicia-se a missa, que dura cerca de uma hora. Nesses três momentos diários, sem acompanhamento instrumental, apenas voz, os monges cartuxos cantam. Naquele fim de tarde, quando todos estavam prontos, quando chegou o instante, o prior começou a cantar. Era quinta-feira, cantaram-se os salmos das quintas-feiras, 138, 139 e 140. Em gregoriano, um dos lados da igreja cantava um verso, o outro lado da igreja respondia com o seguinte. Encostados a paredes opostas, virados uns para os outros, de cabeça baixa, coberta pelo capuz branco do hábito, com o rosto fixo nas páginas do livro, os monges cantavam em português. Na vibração das vozes, dentro da sua mistura colectiva, era possível distinguir-se os erres suaves do monge californiano e, noutras vezes, os erres mais rasgados dos monges espanhóis.
O Convento de Santa Maria Scala Coeli, em Évora, conhecido como Convento da Cartuza, único convento activo desta ordem em Portugal, é a casa de sete monges espanhóis, dois portugueses e um norte-americano. Além destes, o convento recebe um número variável de aspirantes. A língua comum é o português, que, neste caso, não é tanto uma língua de falar, mas é sobretudo uma língua de ler, de pensar ou, mais ainda, é uma língua de orar. A Cartuxa é uma ordem contemplativa: entre os seus princípios fundamentais encontram-se a oração, a clausura, o silêncio e a solidão.
Scala Coeli significa “escada do céu”
E, realmente, é compreensível que, no tempo em que os textos sagrados se escreviam, tenha sido necessário o céu para simbolizar esse Deus omnipotente. À saída das vésperas, estava um céu imenso sobre o pátio do convento, era um céu de bondade. Os monges caminhavam e, um a um, iam entrando pelas portas baixas, distribuídas ao longo da distância dos claustros. O som breve, discreto, de cada porta a fechar-se. Os monges cartuxos passam a maior parte do dia na sua cela. Despida de tudo o que não seja devoto ou prático, cada cela é individual e constituída por uma primeira sala com lareira para acender no inverno e genuflexório, um pequeno escritório com secretária e cadeira, uma divisão de oração, um quarto com cama muito austera, catre com colchão de esponja, e um pátio quadrado de sol e plantas, com casa de banho ao fundo. As horas, os dias são preenchidas com oração e leitura. As refeições são servidas por uma janela e recolhidas desde o interior, através de um sistema pensado para evitar o contacto entre os dois lados. As leituras são escolhidas da biblioteca, onde a quase exclusividade dos livros são religiosos ou espirituais, com secções como Mariologia, Patrologia, Cristologia, Dogma, entre outras. Reparei nos títulos de alguns dos últimos livros consultados: “Ser Cristão Num Mundo Hostil”, “A Teologia da Doença”, “O envelhecimento”. Faz sentido que o envelhecimento seja um motivo de interesse na Cartuxa de Évora: quatro dos monges são octogenários, quatro são septuagenários, um está nos cinquentas e outro nos quarentas. Quanto aos aspirantes, mais jovens, até aos votos solenes, nunca é garantido que sigam a vocação cartuxa. Ao longo dos sete anos de preparação, incluindo postulantado, noviciado e votos temporários, os aspirantes têm liberdade de repensar a sua escolha e sair. O que acontece num grande número de exemplos.
Além da vida na cela, os monges tentam que o mosteiro se aproxime da auto-suficiência e, para tal, dedicam-se a diversos ofícios. Entre os cartuxos, há alfaiate, electricista, pedreiro, serralheiro, etc. Salta à vista a cuidada manutenção do mosteiro e um laranjal no pátio, que, nesta época, está carregado. O padre Isidoro não me deixou sair sem me entregar um saco cheio dessas laranjas. Algumas ainda estão ali, a olhar para mim. São doces. Mas aquilo que demove aspirantes, o sacrifício que torna a vida cartuxa tão específica é o seu carácter eremita. Até as escalas de trabalho são planeadas de modo a que cada monge desenvolva as suas tarefas sozinho, sem companhia. Com a excepção dos domingos e dos dias de festa, os monges cartuxos mantêm o silêncio total. Nessas datas, existe um período de recreio em que conversam, entre as três e as cinco da tarde. Essa é uma conversa colectiva, em que todos ouvem o que é dito. Os monges não aguardam essas horas com impaciência. Uma boa parte deles limita-se a ouvir e há mesmo alguns que podem escolher não participar, recolhendo-se à cela. É também nesses dias que o almoço é tomado em conjunto, simultâneo à leitura ininterrupto de um texto religioso, feita no centro do refeitório. A carne nunca faz parte da ementa dos cartuxos, apenas vegetais, peixe e lacticínios. As sextas são passadas a pão e água. Individualmente, os monges podem escolher fazer períodos de jejum, bastando para isso afixar uma tabuleta com a palavra “abstinência” na janela onde os tabuleiros das refeições são servidos.
Quando o clima permite, a clausura é amenizada por um passeio semanal pelos campos ou a um lugar próximo de interesse religioso ou histórico. Esse instante recreativo permite aos monges caminharem em grupos de dois e dá-lhes a oportunidade de falarem de si próprios. Além dessa ocasião, as raras saídas do convento restringem-se a idas ao médico. A clausura é um compromisso para toda a vida e implica, por exemplo, o sacrifício da família. No escritório, recordando, o padre Antão, prior da Cartuxa de Évora, contou-me que os seus pais, quando eram vivos, para aproveitarem a oportunidade, o visitavam separadamente, no aniversário de um e de outro, em Abril e em Outubro. Ao ouvi-lo, não consegui evitar dirigir o meu olhar na direcção do telefone, o único de todo o convento, o mesmo para onde tinha ligado várias vezes, tentando imaginar onde era atendido. Sei agora que era atendido numa divisão de paredes grossas, brancas, com uma secretária de madeira antiga e silêncio.
Comunidade cartuxa
Ali, o prior é o encarregado de manter o contacto necessário com o exterior. Não é um contacto fácil ou facilitado. O aviso está bem explícito logo no portão, onde uma placa anuncia a clausura e um letreiro bastante directo demove os turistas de tentarem visitar o convento: “A Cartuxa não se visita.” Ao comentar a mudança na vida dos padres que passam a priores, passando da solidão a uma posição de maior convivência com o mundo, o padre Isidoro, brincando, dizia-me: «Por isso é que quase ninguém quer ser prior.» Num lugar onde não existe televisão ou rádio, esse contacto, por breve que seja, deve trazer uma grande diferença no modo de vida. A eleição para prior é feita por todos os monges. Aliás, as principais escolhas do convento são feitas através de um antigo método democrático. Na sala do Capítulo, os monges são chamados a votar com feijões brancos, pretos e vermelhos, que depositam numa caixa de madeira e que representam “sim”, “não” e voto “em branco”. O fundo da gaveta onde caem os feijões está forrado, de maneira a que não se ouçam cair, para preservar o anonimato da abstenção, também possível.
Num mundo tão ambicioso de efémero, a vocação cartuxa espanta pela forma como leva a fé às suas últimas consequências. Esse quotidiano, aparentemente tão distante deste, é habitado por rostos reais, feitos de décadas passadas no silêncio contemplativo, nesse exterior que é, ao mesmo tempo, tão interior. É por isso que espanta, que marca, e não bastam algumas frases escritas com letra miúda no fim deste texto para agradecer a excepção de nos terem aberto os portões do convento. Eu sei que vão ler estas palavras e, a esses dez monges de Évora, quero expressar gratidão. Obrigado por aquilo que não se vê e por aquilo que não se diz. Obrigado também porque, agora, enquanto estamos aqui, eles estão lá, a fazerem-nos saber que “lá” é um lugar que existe.»
Subscrever:
Mensagens (Atom)


