segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dia dos Namorados: sentimentos, olhares e afetos

Verdade, verdade é que os sentimentos são um atraso de vida.
Paralisam ou põem tudo em rodopio.
Estremecem.
Tiram de órbita.
Afundam e ressuscitam.
Fazem rodar as quatro estações.
Na mesma tarde.
Acreditam?
Verdade, verdade é que os sentimentos atrasam. Deixam o trabalho para depois.
Despistam.
Aproximam o pó das estrelas e distanciam o pó das sebentas.
Que fazer?
Suspiros. Olhares. Olhinhos.
A linguagem passa perigosamente ao estado diminutivo sempre que os sentimentos perigosamente se expandem.
O pior é que nem pela ironia se dá.
Mas a verdade, a grande verdade é que os sentimentos interessam.
Tornam-nos gente.
Ensinam-nos a ser.
Pedem de nós o que trazemos de único e de irrepetível.
E preparam-nos para querer, para desejar receber o mesmo.
Do outro. Da outra.
Um comércio puro, gratuito.
Tão diferente, tão distante
dos rotineiros comércios.

A qualidade do nosso estar, aqui ou noutro lado, as coisas que temos ou que gostamos mesmo de aprender, os outros com que vamos tecendo o quotidiano, o sentido mais profundo que buscamos emprestar à nossa vida
dão-nos estofo. Firmeza interior.
Capacidade de construir.
Não aconteça sermos nós
uns atrasos de vida que fazem emperrar
os essenciais sentimentos.

Tolentino Mendonça

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

João Madureira de volta, no CCB!!!!



Sete Lágrimas
  Grande sorte a nossa : mais um concerto de João Madureira , desta vez no CCB, no próximo dia 26 de Fevereiro.Nem mais nem menos a Missa de Pentecostes de João Madureira e Cantigas de Amigo  
de Martin Codax (Séc. XIII).Concerto segundo do Tríptico da Terra.Músicos de primeira água, Zsuzsi Tóth soprano e dos Sete Lágrimas , Filipe Faria e Sérgio Peixoto.
Vejam mais detalhes aqui e não percam!! O concerto é às cinco da tarde de um domingo.Querem melhor?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Hino ao Silêncio de Bento XVI

Num momento particularmente silencioso da minha vida encontrei este texto de Bento XVI , que diz tudo.


«Silêncio e palavra [são] dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas.
Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado.
O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo.
No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos.
Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias.
Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca e torna-se possível uma relação humana mais plena.


É no silêncio, por exemplo, que se identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa.
No silêncio, falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma particularmente intensa de expressão. Quando as mensagens e a informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório.


O silêncio é precioso para favorecer o necessário discernimento entre os inúmeros estímulos e as muitas respostas que recebemos, justamente para identificar e focalizar as perguntas verdadeiramente importantes.
Neste mundo complexo e diversificado da comunicação, aflora a preocupação de muitos pelas questões últimas da existência humana: Quem sou eu? Que posso saber? Que devo fazer? Que posso esperar?


É importante acolher as pessoas que se põem estas questões, criando a possibilidade de um diálogo profundo, feito não só de palavra e confrontação, mas também de convite à reflexão e ao silêncio, que às vezes pode ser mais eloquente do que uma resposta apressada, permitindo a quem se interroga descer até ao mais fundo de si mesmo e abrir-se para aquele caminho de resposta que Deus inscreveu no coração do homem.
O Deus da revelação bíblica fala também sem palavras: «Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. Se Deus fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a possibilidade de falar com Deus e de Deus.
Quando falamos da grandeza de Deus, a nossa linguagem revela-se sempre inadequada e, deste modo, abre-se o espaço da contemplação silenciosa.
Na contemplação silenciosa, surge ainda mais forte aquela Palavra eterna pela qual o mundo foi feito, e identifica-se aquele desígnio de salvação que Deus realiza, por palavras e gestos, em toda a história da humanidade.


Silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo. »

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

José Luís Peixoto

Em Lisboa, no Martim Moniz. Há um mês atrás, no dia 7 de setembro de 2011.
Pouco habituado à superfície do chão, firmava um pé e depois outro, como se quisesse parar a rotação da terra. Levava as mãos levantadas à altura do peito, as palmas das mãos paralelas ao chão, equilibrando-se. No centro do Martim Moniz, ninguém prestava especial atenção a um homem de meia idade a cambalear. Nem os pombos se incomodavam com a sua presença. Eram pombos temerários, de patas mutiladas pelos elétricos. Zonzo, com passos que tinha acabado de reaprender, Ivan aproximou-se de dois homens. Perguntou-lhes onde estava. Os homens não se admiraram com a pergunta.
Eram russos.
Antes de responderem, ofereceram-lhe uma golada de um pacote de vinho tinto, que tiraram de um saco de plástico do Minipreço. Ivan não aceitou e não recusou, havia demasiado pânico nos seus olhos. Foi o homem mais magro que lhe disse que estavam no Martim Moniz. Confuso, com má pronúncia, Ivan repetiu esses dois nomes. Depois, perguntou como foi parar ali. Os dois homens olharam um para o outro como se encolhessem os ombros e não disseram nada. Eles próprios repetiam essa questão para si mesmos todos os dias.
Passou uma ambulância e Ivan encolheu-se todo. Aterrorizado, perguntou como poderia sair dali. Os dois homens acalmaram-no. Convidaram-no a sentar-se ao lado deles. O mais gordo perguntou-lhe o nome. Ivan declamou o nome completo como se, ao fazê-lo, reclamasse a propriedade do seu corpo. Enquanto bocejava e abria uma torta Dan Cake de morango, o mais magro achou curioso que tivesse o mesmo nome do juiz do livro de Tolstoi. Ivan não conhecia Tolstoi, desconhecia, mas, como se se tivesse lembrado de repente, aproveitou para dizer que era juiz. "Um juiz faz sempre muita falta", acrescentou o magro a mastigar torta e a rir-se. Houve uma pausa sem palavras entre os homens. O mais magro era topógrafo, tinha sido essa a sua profissão na Rússia; o mais gordo era professor de álgebra, tinha sido essa a sua profissão na Universidade Lomonosov, em Moscovo.
Ivan resignou-se ou começou a perceber o alcance da proposta que lhe era apresentada. Fixando a distância, talvez tentasse encontrar razões para aquela perturbação do seu descanso. A morte era uma tranquilidade tão confortável, tinha-se habituado a ela, não era justo roubarem-lhe o costume e a paz que os seus ossos e o seu espírito tinham conquistado. Porquê, porquê? Ou, também lhe ocorreu, talvez chegar ali, àquele lugar de barulho, fizesse parte da própria morte. De qualquer das maneiras, todo o trabalho que tivera para alcançar uma morte que o satisfizesse, parecia desperdiçado.
"Não penses nisso", disse o homem mais gordo, como se conseguisse imaginar aquilo em que Ivan estava a pensar. Nesse momento, através das frases arrastadas e incompletas que escutara, Ivan já sabia que o homem mais gordo se chamava Sergei. O mais magro chamava-se Nikolai. Além disso, através das mesmas frases arrastadas, sabia que havia pouco trabalho. "Há trabalho, não há é patrões que paguem", corrigiu Nikolai, com a voz mais lenta, a língua com mais dificuldade de se desenrolar dentro da boca e com a cabeça a equilibrar-se sobre o pescoço, mas a descair, redonda. "Senhor Almeida gatuno, filho da puta", disse Sergei em português enquanto se esforçava por rasgar o bico de outro pacote de vinho tinto.
Ivan não entendeu essa frase, mas não se incomodou. Havia muito que não percebia e que nem começava a tentar perceber. Essa frase portuguesa não era tão misteriosa como os automóveis que contornavam o lugar onde estavam, os autocarros, as motas. Mas o barulho dos motores, por mais matador de cabeça, não era nada perante o mistério, o abismo, de estar morto num momento e, depois, no momento seguinte, estar ali.
Nikolai perguntou a Ivan porque não tinha regressado para a Rússia. Ivan não ouviu, estava a olhar para um grupo de indianos que, a poucos metros, atravessava o centro do largo do Martim Moniz. Nikolai começou a contar a sua própria história, a razão por que ainda não tinha regressado para a Rússia, mas ninguém ouviu. Sergei foi pedir um cigarro e Ivan tinha os olhos envidraçados por cismas. A estranheza da sua nova condição tomava-o por inteiro. "E foi por isso, apenas por isso, que ainda não regressei à Rússia", após dizer isto, Nikolai comoveu-se tomado por um vapor patriótico, ia quase começar a cantar o hino nacional russo, mas Sergei chegou a fumar, a tossir e quebrou o clima. Ivan, claro, não estava atento.
Então, como se despertasse de uma hipnose, Ivan Ilitch consciencializou-se que já tinha vivido, adoecido, morrido e ressuscitado. Essa constatação deu-lhe oportunidade de apreciar o movimento que os seus pulmões estavam, de novo a fazer. A brisa, que novidade. Levantou o olhar, o céu, que distância. Em tudo, de repente, um entusiasmo extremo, uma euforia desmedida. Os seus olhos cresciam. Perguntou de novo onde estava. Sergei voltou a responder que estavam no Martim Moniz. "Sim, mas onde?", voltou a perguntar. Sergei respondeu.
Portugal.
Ivan Ilitch sentiu-se fascinado por essa palavra. De novo, queria viver. Acreditava, de novo, que seria capaz de restaurar a paz que alcançara por duas vezes: na vida e na morte. Procurando o olhar dos homens, que o fixavam de boca aberta e cara mal lavada, perguntou onde iam. Sergei, que segurava o último pacote de vinho já vazio, disse que podiam ir ao Minipreço. Ivan Ilitich concordou, ingénuo, sem poder prever o assombro que iria experimentar quando lá chegasse.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O crente é uma pergunta?

«Dos não crentes recebemos o recentramento do debate», disse o P. Tolentino,sexta-feira passada, dia 16, no lançamento do «Pai-nosso que estais na terra». Por isso «o discurso teológico tem de ser poroso» e acolher poetas e criadores, e também a dissensão, a heterodoxia e a «pergunta mais radical». O crente, por seu lado, «é uma pergunta», «um património de inquietação» que «habita o desconforto» e «calça as sandálias de peregrino, mesmo quando é velho». Por isso, acrescenta o poeta e biblista, eles deixam uma «herança ao mundo e à cultura».
http://www.snpcultura.org/igreja_teologia_cultura_elogio_crentes_e_nao_crentes.html

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Guilherme Oliveira Martins a propósito de Tolentino Mendonça

«Pai-Nosso que Estais na Terra» de José Tolentino Mendonça (Paulinas, 2011) é, segundo o subtítulo da obra, «o Pai-nosso aberto a crentes e a não-crentes» e José Mattoso afirma que essa abertura constitui uma característica singularíssima desta obra: «há milhares de comentários ao Pai-nosso, a única oração que Jesus nos ensinou. Não conheço nenhum ao nosso Pai que está na Terra». É por aí que o escritor faz do seu comentário um diálogo aberto a todos. Nesse sentido, este é um livro para este tempo, uma vez que procura sinais de esperança num momento de grande dúvida e incerteza.

ENTRE A DISPONIBILIDADE E O ENCONTRO
Estamos perante um livro de disponibilidade e de encontro. Pensei nele, há dias, quando em Ponta Delgada, numa iniciativa da Comissão Diocesana Justiça e Paz, me perguntaram como será possível sermos solidários e próximos nos dias de hoje – e respondi que a melhor maneira é darmo-nos como presentes e disponíveis, em lugar de nos impormos. E é essa disponibilidade de dizer «aqui estou!», fundamental em tempos de solidão e indiferença. O tema deste livro é exatamente esse: o de considerar a disponibilidade de quem dá e de quem recebe. De um modo que apela ao desassossego, o nosso autor fala-nos do Pai-nosso com sinal de unidade que tem tudo a ver connosco, e com as nossas diferenças, por isso nos fala da terra, não como lugar de chegada, mas como ponto de passagem e de partida, como instância de peregrinação. De facto, ao dirigirmo-nos ao Pai que está nos céus e na terra, sentimos que Charles Péguy tem razão ao invocar o sentido pessoal e comunitário de um diálogo: «É necessário salvar-se conjuntamente, precisamos de chegar juntos ao Paraíso, precisamos apresentar-nos juntos no Paraíso. É necessário pensar nos outros, é necessário doar-se aos outros. O que é que Deus nos dirá, se chegarmos ao paraíso sem os outros?». É esta a lição fundamental desta extraordinária oração que se baseia no amor e na responsabilidade para com os outros – a outra metade de nós mesmos. E é assim que a lição fundamental deste belo livro se pode resumir nesta afirmação: «Ao recitar o Pai-nosso somos chamados a viver uma aventura que Jesus quis que fosse assim: partir da nossa experiência humana e comum, do nosso viver ferido para descobri-lo companheiro, como Ele foi companheiro dos discípulos de Emaus, naquele entardecer que é ainda o nosso».
ABRIR O CORAÇÃO
A Regra de S. Bento diz: «Abre o ouvido do teu coração». A arte da escuta exige que o diálogo seja efetivo. «Escutarmos e podermos ser escutados, até ao fundo e até ao fim, abre, no Espírito, horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da esperança». A cada passo encontramos a palavra esperança, ligada ao «bom uso das crises». Num tempo de escassez de mestres, as experiências «são realmente grandes mestres, que têm alguma coisa a ensinar-nos». Mounier falou dos acontecimentos, esses nossos grandes mestres interiores, e Etty Hillesum implorou: «Meu Deus, esta época é demasiado dura para gente frágil como eu. Mas sei igualmente que, a seguir a este, outro tempo virá». Impõe-se, de facto, neste tempo de crise, uma atenção especial ao que nos rodeia, e dessa atenção tem de resultar o cuidado, que está na etimologia de caridade. Por que razão chegámos aqui? Porque não cuidámos de algumas coisas elementares, designadamente de que o progresso não é ilimitado e de que o desenvolvimento humano não existe, se não pusermos as pessoas no centro da economia e da sociedade. Daí que a austeridade que aí está e que até pode ser boa conselheira, não possa ser cega e surda relativamente à justiça. Não é um fim em si, a austeridade tem de ser um instrumento de dignidade e de respeito mútuo. Tem de ser modéstia, sobriedade e de reciprocidade. «Todas as vidas cabem na imagem quotidiana, quase trivial, do pão que se parte e reparte. Porque as vidas são coisas semeadas, crescidas, maturadas, ceifadas, trituradas, amassadas: são como pão. Porque não apenas degustamos e consumimos o mundo: dentro de nós vamos percebendo que o mundo, que o tempo, também nos consome, nos gasta, nos devora. Por boas e por más razões, ninguém permanece inteiro. Somos uma massa que se quebra, um miolo que se esfarela, uma espessura que diminui». Não podemos continuar a pôr o consumo desenfreado em primeiro lugar, a gastar o que se tem e o que se não tem, a viver a crédito, a julgar que a especulação pode ocupar o lugar da criação, a jogar permanentemente com as aparências, a praticar a ilusão dos resultados que não existem – tudo isso obriga a compreender que devemos merecer o pão nosso de cada dia.  
O MISTÉRIO DAS TENTAÇÕES
José Tolentino Mendonça recorda, em determinado momento do seu livro, o episódio das tentações de Jesus: «Então o espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães”. Respondeu-lhe Jesus: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Depois, conhece-se o que segue: o diabo coloca primeiro Jesus sobre o pináculo do templo e em seguida num monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória. Mas o resultado é que, em face das respostas de Jesus, «o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no» (Mt., 4,1-11). O autor diz-nos que estas tentações não aconteceram num só dia e que representam a vivência das provações da condição humana. Mas quais as tentações que nos rodeiam e que aqui estão figuradas? O materialismo, o providencialismo e o absolutismo. O materialismo e a idolatria da matéria, numa vertigem de tudo ocupar com a satisfação imediata dos desejos e das explicações simplificadoras. O providencialismo, que confunde a relação com Deus com as interpretações fantasiosas e mágicas. «Não nos podemos atirar de pináculos para que Deus nos segure. Temos de integrar saudavelmente os nossos limites e fazer a nossa parte». E o absolutismo, que faz «do domínio da posse a fonte de felicidade» e que confunde a glória passageira com a experiência da magnitude da dignidade. Mas, para o nosso escritor, temos de lembrar uma quarta tentação, bem ilustrada pelo drama de T.S. Eliot «Crime na Catedral». Aí o que está em causa tem a ver com os desejos de fidelidade poderem ser sinais de orgulho e de vaidade… Será que não cometemos o pecado da soberba perante as virtudes que julgamos possuir? E é essa quarta tentação que pode minar a confiança, uma vez que ela é verosímil e que nos pode atingir. O cristianismo caracteriza-se, porém, por aproximar o exemplo do Filho de Deus das nossas próprias provações. Não se trata de nos compararmos com Alguém que não pode compreender-nos, mas de colocar as nossas angústias ao alcance do próprio Deus. Essa é a chave da Encarnação. «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» - os ecos do Salmo são o ponto nodal de um profundo diálogo. Daí a confiança nascida numa comparticipação que tem a ver com a experiência humana. E Simone Weil afirma: «Só a confiança dá suficiente força para que o receio não seja a causa da queda».
«VAI ONDE NÃO POSSAS...»
Angelus Silesius diz: «Vai onde não possas / vê onde não vês: / escuta onde não ressoa / e assim estarás onde Deus fala». Este é o silêncio fundamental que exige que oiçamos o essencial por parte de quem «é o Jesus que nos interpela a cada passo e inesperadamente». Com fome, deste-me de comer, com sede deste-me de beber, nu, vestiste-me… Afinal, esse é o sinal de responsabilidade que se nos pede. E este ir onde se não possa, não é mais do que ser cada vez mais exigente e nunca acomodado, mantendo os olhos abertos.

Guilherme d'Oliveira Martins